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O menino de sons
Ilustrações: Daniel
Rodrigues
Editora Franco, 2005
no PRELO
Leia trechos deste livro
inédito:
Era um menino de sons. Da época em que meninos podiam ser de sons e, antes
das palavras, os meninos cantavam. Por isso, antes de tudo, o menino
começou a cantar.
Se lhe diziam “Bom dia!”, o menino cantava um som de “Bom dia!” e som
assim é som de pássaro pousado em fio de poste, esperando que se abra um
jardim, ou então som de girassol fazendo movimentos com a cabeça,
esperando o sol aparecer...
(...)
Só que, mesmo naquela época, sempre chegava a hora de os meninos falarem e
era chegada a hora de aquele menino falar, só que ele ainda só cantava:
- Não sei o que tem esse menino! diziam todos da família... Quem sabe ele
precisa beber água de chuva do décimo sétimo dia de março, recolhida em
copinho de casca de ovo...
- Não! Para que fale, precisa que o mais velho da família lhe dê de
presente a folha mais verde, recolhida no dia do casamento de seus pais...
Todos os dias vinham mais um e mais outro e mais ainda para dar a sua
sugestão de como fazer o menino de sons falar... E estavam todos tão
preocupados com a fala do menino que nem se deram conta de que tinham
esquecido o nome dele. Por isso, passaram a chamá-lo só de Menino de Sons!
Quanto ao menino, nem se importava, afinal, não falava mesmo e, por esse
motivo, não sabia como se pronunciava seu nome. Mas sabia, e isto sabia
muito bem, como o seu nome soava... E o seu nome soava como cavalos
coloridos correndo numa campina alta e bem verde, soava como balões voando
em dia de festa na praça, ainda mais: soava como quatro arco-íris em dia
que acabou de chover tanto que já nem se espera que ainda seja de tarde.
Isso o menino sabia. |